Prefácio do Livro: “Empresa Viva” de Arie de Geus
Autor: Peter M. Senge
Graças a Arie de Geus, a quem conheci há mais de 15 anos, aprofundei-me verdadeiramente nos conceitos de aprendizado organizacional. Aquele encontro deu início à jornada de toda vida.
Ele me apresentou o famoso estudo feito pela Royal Dutch/Shell, da qual era o coordenador de planejamento em âmbito mundial. Esse estudo revelou que a expectativa de vida das quinhentas empresas da Fortune, do nascimento até a morte, era de apenas quarenta e cinco anos e que, ainda assim, existiam muitas empresas com mais de duzentos anos de idade. Arie convenceu-me de que muitas organizações morrem prematuramente – a maior parte antes de completar seu qüinquagésimo aniversário. A maioria das empresas de grande porte, disse ele, sofre de deficiências de aprendizado. Por alguma razão, elas não conseguem acompanhar e se adaptar às mudanças que ocorre no mundo que as cerca.
E, o que é mais importante, ele me fez pensar pela primeira vez sobre as inter-relações entre baixa expectativa de vida e baixa vitalidade das empresas enquanto ainda ativas. Ambas são sintonias da saúde geral da empresa. À semelhança das pessoas cuja saúde vai mal, prenunciando uma morte prematura, muitas empresa de grande porte e que parecem bem-sucedidas estão gravemente enfermas. Os membros dessas organizações não percebem que sua empresa está sofrendo de baixa expectativa de ida. Eles sentem a saúde deficiente da empresa sob forma de estresse de trabalho, de intermináveis lutas por poder e controle e de ceticismo e resignação quando surgem em um ambiente de trabalho que sufoca em vez de liberara a imaginação, a energia e o envolvimento das pessoas. O clima cotidiano de muitas organizações talvez seja mais tóxico do que nos dispomos a admitir, quer essas empresas estejam ou não em meio a um óbvio declínio.
Esse é um livro de filosofia prática. Segundo minha experiência, profissionais extraordinários como Arie podem dar contribuições únicas ao pensamento gerencial, mas essas contribuições raramente são reconhecidas. Ao contrário dos acadêmicos, que escrevem sobre o que pensam, profissionais pensam sobre o que vivenciaram. Pelo fato de a fonte de seu pensamento ser antes a experiência que conceitos, não raro eles demonstram que as idéias mais profundas são as mais simples.
No cerne deste livro está uma pergunta simples com profundíssimas implicações: e se pensássemos na empresa como um ser vivo?
A pergunta levanta outra questão óbvia: qual seria a visão alternativa de empresa se não a enxergarmos como um ser vivo? A visão alternativa é enxergá-la como uma máquina de fazer dinheiro.
O contrate entre essas duas visos – máquina de fazer dinheiro versus ser vivo – lança luz sobre uma infinidade de premissas básicas relativas a gestão e organizações.
Creio que quase todos nós adotamos a premissa da máquina sem jamais parar
para pensar a respeito.Agindo assim, provavelmente moldamos o destino individual de organizações muito mais do que imaginamos.
Por exemplo, uma máquina pertence a alguém. Estamos acostumados a pensar nas empresas exatamente neste termos: elas pertencem aos proprietários, que em geral são diferenciados dos membros da empresa. Mas o que significa dizer que um ser vivo pertence a alguém? A maioria das pessoas, em todo o mundo veria a idéia de uma pessoa possuir a outra como algo totalmente imoral. Com relação a uma empresa, por acaso seria menos problemático?
Uma máquina serve a uma finalidade concebida por seus criadores. Novamente, esta é a visão convencional de empresa: sua finalidade é fazer o máximo de dinheiro possível para seus proprietários. Contudo, os seres vivos têm suas próprias finalidades. Esta finalidade inerente jamais poderá ser completamente suplantada pelos objetivos de outra finalidade, muito embora o ser vivo possa se mostrar sensível aos objetivos de outros seres vivos. O que acontece à energia vital de um ser vivo quando ele não pode perseguir o seu próprio objetivo?
Para ser eficiente, uma máquina deve ser controlável por seus operadores. Esta, naturalmente, é a raison d’être (razão de ser) suprema da gerência – controlar a empresa. No entanto, ao contrário das máquinas, os seres vivos não são controláveis. (Qualquer pessoa que duvide dessa premissa poderia pensar em seu sucesso em controlar os filhos adolescentes.) Eles são “influenciáveis”, mas somente por processos interativos e complexos, os quais são passíveis de alterar tanto o influenciador como o influenciador como o influenciado. Não serão as lutas pelo controle que raiz da maior parte da politicagem e dos jogos corporativos?
Indo mais adiante, ver uma empresa como uma máquina implica que ela foi criada por alguém de fora. Esta é precisamente a forma pela qual a maioria das pessoas vê o sistema e os procedimentos corporativos – como algo criado pela gerência e imposto à organização. Ver uma empresa como um ser vivo implica que ela crie seus próprios processos, da mesma forma como o corpo humano fabrica suas próprias células, as quais, por sua vez, compõem sés próprios órgãos e sistemas orgânicos. Não é exatamente assim que surge a organização informal de qualquer grande empresa? As redes de relacionamentos e os canais de comunicação essenciais a qualquer pessoa para que ela faça seu trabalho são, na verdade, criados pelas próprias pessoas.
Ver uma empresa como uma máquina implica que ela é algo fixo, estático. Ela só poderá mudar se alguém modificá-la. Ver uma empresa como um ser vivo significa que ela evolui naturalmente.
Ver uma empresa como uma máquina implica que seu único senso de identidade é o que ela recebe de seus criadores. Ver uma empresa como um ser vivo significa que ela tem senso de identidade próprio, sua própria pessoa.
Ver uma empresa como uma máquina implica que seus atos são, na verdade, reações a objetivos e decisões concebidos pela gerência. Ver uma empresa como um ser vivo significa que ela tem seus próprios objetivos e sua própria capacidade de ação autônoma.
Ver uma empresa como uma máquina implica que ela se desintegrará, a menos que seja reconstruída pela gerência. Ver uma empresa como um ser vivo significa que ela é capaz de se reconstruir a si mesma, de ter continuidade como uma entidade identificável que vai além de seus membros atuais.
Ver uma empresa como uma máquina implica que seus membros são funcionários, ou pior, “recursos humanos”, seres humanos quedando em reserva, a espera de serem usados. Ver uma empresa como um ser vivo leva a ver seus membros como comunidades humanas de trabalho.
Finalmente, ver uma empresa como uma máquina implica que ela só aprende com a soma do aprendizado de seus funcionários individualmente. Ver uma empresa como um ser vivo significa que ela pode aprender como uma entidade, da mesma forma como uma companhia teatral, uma banda de jazz ou um time esportivo podem realmente aprender como entidade. Neste livro, Arie afirma que somente seres vivos podem aprender.
É difícil avaliar essa lista de características de máquinas versus seres vivos sem sentir arrebatado pela idéia defendida por Arie. Por que, então, me pergunto, não cheguei antes a essa visão? Por que me parece tão difícil realmente pensar em empresas como seres vivos? Por que esta idéia tão simples parece ser tão difícil de interiorizar?
Será porque pensamos que a vida começa e termina em nós? Sem dúvida, organismos mais simples estão vivos. Por que, então, não podemos ver organismos mais complexos, como famílias, sociedades ou empresas, como também estando vivos? Será a bacia de maré, uma fervilhante comunidade de vida, menos viva que as anêmonas, mexilhões ou caranguejos que a habitam? Será que nosso modelo de “empresa” está tão arraigado em nossas mentes que não conseguimos nos afastar dele? Ou talvez, simplesmente não desejamos nos afastar dele? Se é de fato em termos de máquina que pensamos nas empresas das quais fazemos parte, isso implica que somos elementos mecânicos dessa máquina. Uma máquina não tem partes vivas. Para muitos de nós, não resta dúvida que isso deu origem a uma profunda antipatia para com nossas organizações. Em algum nível, ressentimo-nos profundamente de termos sido transformados em máquinas. Se existe alguma verdade nisso, então ela provavelmente indica o quanto essa pergunta simples de Arie de fato é importante.
Conforme Arie destaca, a metáfora da máquina é tão poderosa que molda o caráter da maioria das organizações. Elas tendem a se comportar mais como máquinas do que como seres vivos porque é assim que seus membros pensam nelas.
Assim sendo, talvez nossa primeira tarefa seja mudar nosso modo de pensar. Conforme disse Einstein, “não se pode resolver problemas com o mesmo grau de consciência com que foram criados”. À medida que empreendemos tal tarefa, os diversos insights práticos que Arie oferece sobre de que modo a empresa como ser vivo pode planejar, aprender e se autogerir e governar se revelarão inestimáveis degraus rumo a algo que, para a maioria de nós, será um mundo muito diferente.
Talvez também seja útil lembrar que, por mais estranha que a visão de Arie possa parecer para alguns de nós, ela é, na verdade, muito antiga. Aparentemente, culturas de todos os cantos do mundo seguiram idéias semelhantes por longos períodos de tempo. Em sueco, o termo mais antigo para “empresa” é narings liv, literalmente “alimento para a vida”. Os antigos ideogramas chineses – de no mínimo 3.000 anos de idade – para “empresa” são

A tradução do primeiro desses ideogramas é “vida” ou “viver”. Pode ser traduzido também como “sobreviver” e “nascimento”. A tradução do segundo ideograma é “significado”.
À medida que nos aproximamos do século XXI, seria oportuno, ou talvez crucial, que nos lembrássemos daquilo que os seres humanos compreenderam há muito tempo – que trabalhar em conjunto pode realmente ser uma copiosa fonte de significado de vida. Qualquer coisa que estiver aquém disso não passará de emprego.
Peter M. Senge
6 de dezembro de 1996
|
|