O Desenvolvimento de Empresas Plenas através de Programas de Educação Ambiental para Público Interno
Deborah Munhoz
Rede Mineira de Educação Ambiental; Rede Brasileira de Educação Ambiental
Ref.:
MUNHOZ, DEA. O Desenvolvimento de Empresas Plenas através do Programa de Educação Ambiental para o Público Interno. In: CONGRESSO IBEROAMERICANO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL, 5, Joinville, Anais,Santa Catarina, 2006.
Introdução: O início do século XXI vem acompanhado de iniciativas que buscam humanizar as empresas e avançar sobre a cultura do comando e controle. Uma dessas iniciativas para a transformação da cultura reativa em cultura proativa é o investimento na implantação de Programas de Educação Ambiental para Público Interno (PEA PINT) e em Programas de Desenvolvimento de Fornecedores. Como exemplos de empresas que investem em PEA PINT podem ser citadas a ACESITA, localizada na cidade de Timóteo, MBR Mina do Pico, em Nova Lima, VALE DO RIO DOCE e BUNGE, cidade de Araxá, todas cituadas no estado de Minas Gerais, Brasil. Este trabalho propõe o desenvolvimento de PEAs PINT tendo como referenciais o conceito SER (Sensibilização/Querer, Educação/Saber, Realização/Fazer) desenvolvido por Raimundo Soares/Instituto Orior Pesquisa em Bio-Sistemas Organizacional de Belo Horizonte, Minas Gerais, juntamente com a Ecologia Integral e a Alfabetização Ecológica segundo MUNHOZ, 2004.
Metodologia: A EA em empresas de maneira geral tem como focos específicos a sensibilização, o conhecimento (geral e específico sobre as questões ambientais locais e globais, como também daquelas relacionadas com a atividade da empresa), prevenção, mensuração e controle da poluição, o auto-conhecimento, o “empowerment”, a mudança comportamental, implantação e sustentação do
SGA, a responsabilidade sócio-ambiental tanto legal quanto como princípio ético, o desenvolvimento de habilidades, a cidadania e a prática/ação. É importante fazer uma distinção entre o PEA a que este trabalho se refere e a Educação Ambiental voltada para a Gestão Ambiental. Essa última visa prioritariamente o atendimento das necessidades da empresa dentro do processo de Gestão Ambiental enquanto a primeira é mais ampla e independe dos interesses da empresa, estando voltada para a formação do ser humano. Ambas são complementares e a realização de uma não exclui a necessidade da outra. Adota-se com conceito de EA o da Conferência de Tbilisi.
De acordo com o conceito SER, uma liderança mais adequada para alavancar o processo consciencial nas organizações precisa estar orientada para quatro dimensões do conhecimento: de si mesmo, das pessoas, da tarefa e do mundo. Dentro do conceito SER, na dimensão da Sensibilização/Querer, está a missão e o propósito da empresa, assim também como seus valores. Na dimensão da Educação/Saber, encontram-se o conhecimento das pessoas, o tecnológico, da
tecnologia gerencial e o holístico. A EA em empresas requer conhecimentos técnicos e operacionais específicos, devendo levar sempre em consideração o negócio da empresa. Na dimensão da Realização/Fazer encontram-se a organização e os diversos sistemas da empresa (marketing, desenvolvimento de produtos, produção, recursos humanos e financeiros). A forma predominante de administrar empresas utiliza um estilo piramidal de liderança herdado de exércitos e monarquias.
No topo está o Presidente/General, seguido do Vice Presidente/Coronéis, Gerentes Intermediários/Capitães e Tenentes, Supervisores/Sargentos e finalmente os Empregados (associados)/Soldados (tropas). HUNTER, 2004 ainda acrescenta um sexto nível na pirâmide onde inclui o Inimigo e, curiosamente, o Cliente. Embora sejam os clientes a razão de existir de uma empresa, seus empregados trabalham para agradar principalmente ao “patrão”, ao seu superior. A empresa assim, deixa de servir às necessidades do outro para servir às vaidades administrativas, ao ego dos líderes. A empresa se organiza segundo uma forma de poder “de cima para baixo”.
Desenvolvimento: Os PEAS PINT devem contribuir para a mudança do modelo militar para um paradigma do Servir (HUNTER, 2004) buscando alcançar o nível de equilíbrio entre a alma, a mente e o corpo da empresa. Ao inverter o modelo piramidal surge o modelo do serviço. No triângulo invertido, o presidente serve ao vice, que serve aos gerentes intermediários. Esses últimos servem aos supervisores que servem aos empregados que, por sua vez, servem aos clientes. Assim como nos sistemas biológicos, cada nível organizacional cumpre sua função ecológica na organização e essa, por sua vez, serve à comunidade.
O(A) líder deixa de ser aquele(a) que comanda, para aquele que serve. É alguém que identifica e satisfaz as necessidades legítimas exigências física ou psicológica para o bem estar do ser humano - de seus liderados e remove barreiras para que possam servir/executar bem seus trabalho. Tal equilíbrio resulta em um ciclo vital e positivo formado pela competitividade, rentabilidade e criatividade transformando empresas comuns nas chamdas empresa plena (TRAJAN, 2000). Para que mudanças comportamentais ocorram é necessário que a empresa trace estratégias e crie oportunidades para que as pessoas exercitem os valores aprendidos. Mudança de hábitos como por exemplo a mistura de resíduos requer tempo e exercícios. Exige rompimento de zonas de conforto.
O PEA apoiado pela alta direção deve prever situações desafiadoras e instigadoras para que os funcionários busquem soluções com a aplicação dos conceitos e valores aprendidos. Por outro lado a empresa deve dar condições dos funcionários concretizarem ações de proteção ambiental ou de autocuidado.
De nada adianta conscientizar as pessoas sobre a necessidade de respirar ar puro se os filtros do ar condicionado não são limpos periodicamente ou o “chefe” fuma na sala de reunião fechada e com o ar condicionado.
A alta administração precisa abraçar a prática de valores sócio-ambientais dentro da própria empresa para que cultura do comando e controle passe para a cultura do cuidado, para a cultura preventiva: cuidado com o próprio corpo, reduzindo a exposição à contaminação química, cuidado com as relações no ambiente de trabalho, evitando fofocas e intrigas, cuidado com o ambiente externo, praticando a manutenção preventiva em detrimento à manutenção corretiva; aquisição de produtos mais saudáveis, disposição adequada de resíduos, dentre outros. Na área de produção, nada adianta conscientizar sobre o uso dos protetores auriculares e não oferecer protetores confortáveis.
Na criação de PEAs INT, a empresa deve se perguntar: O quê devemos e queremos mudar? Que oportunidades daremos aos nossos funcionários de praticarem aquilo que aprenderam dentro e fora da empresa? Como iremos monitorar a mudança comportamental? Que indicadores objetivos poderemos
usar? Muitas das respostas poderão ser pelas próprias equipes de trabalho, a exemplo da formação de Ecotimes na implantação de programas de Produção Mais Limpa. O setor de limpeza e manutenção têm pontos de vista sobre o comportamento das pessoas e podem contribuir com excelentes sugestões
devido ao tipo de trabalho que têm na organização.
Considerações Finais: PEAs destinados ao público interno de empresas ainda é incipiente. O Desafio de um PEA em empresas é provocar mudanças de comportamento a partir do desenvolvimento da consciência e liberdade dos indívíduos associadas à implementação de oportunidades para a expressão
de um comportamento ambiental saudável. A prática da Ecologia Integral juntamente com a aplicação dos princípios ecológicos integrada ao conceito SER pode conduzir à incorporação de valores e princípios na vida pessoal, nos relacionamentos e com o ambiente externo natural ou construído.
O PEA, ao aumentar a capacidade de reconhecimento do ser humano nas diferentes esferas de poder organizacional busca não só contribuir para a humanização das empresas como a aplicação dos princípios ecológicos no planejamento das ações, desenvolvimento de produtos e serviços (Ecodesign).
Sendo a EA um processo, a mudança cultural necessária para sair do comportamento reativo para próativo também o é. A consciência e a liberdade de escolha em respeito à vida reconhecida a partir de si mesmo proporciona um resignificado nas relações empresa/ambiente interno partes interessadas
capital. A empresa enquanto uma organização humana pode ser um espaço de aprendizagem do equilíbrio entre o Ser Cuidado e o Ser Trabalho (BOFF, 1995).
Bibliografia:
BOFF, L. Saber Cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 199p. 1999. 5a ed.
CAPRA, F. A teia da vida uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Editora Cultrix LTDA, 256p., 1996
HUNTER, J. C. “O monge e o executivo uma história sobre a essência da liderança”. Rio de Janeiro, RJ: Sextante, 139p. 2004. 14a ed.
MUNHOZ, D “Alfabetização Ecológica: das pessoas às cadeias produtivas”. IN: Identidades da Educação Ambiental Brasileira. MMA/DEA; P. P. Layrargues, (Coord.), Brasília: MMA, 2004 TRAJAN, R. A. ”A empresa de corpo, mente e alma”. São Paulo, SP: Gente, 2001 |
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